1900

Capítulo 1 - O plano de Natal

O dia de natal do ano de 1899 amanheceu com uma garoa fria e leve na cidade de Firenze.
A senhora Carmela Lori foi a primeita levantar. Lavou seu rosto na bacia de prata que deixava sobre a cômoda. Como de costume trajou-se com vestido azul-celeste. Desceu até a sala de jantar, um ambiente amplo, todo decorado com móveis de lei, algumas pratarias inglesas, um vaso enorme sobre a mesa, sempre ornado de rosas brancas, e com cortinas de algodão, já amareladas pelo uso. Fazia parte das tradições familiares, manter essa decoração.
Sra Lori sentou-se a mesa para o desjejum, já servido rotineiramente pela ama Nhá Cleide. Para a dona Lori, sua ama era de muita estima, pois era uma velha escrava que lhe foi dada por uma baronesa do café, em uma de suas viagens pelo Brasil.
Não muito tempo depois o senhor Marco desceu. Entre o casal já não havia mais a mesma paixão de outrora. Após quarenta e seis anos de casamento restara apenas uma fria cordialidade. Talvez tenha sido essa a razão deles terem passado a noite de natal sozinhos.
O velho bebericava uns goles de café e mordiscava umbrioche quando a campainha tocou. Nhá Cleide com todos seus cento e vinte quilos saiu às pressas. Era o melhor amigo do Sr. Marco, um delegado aposentado. O senhor Cisnério Hioga era um velho já com seus quase setenta anos, baixo e rechonchudo, cuja cabeça há anos era desprovida de cabelos. Devido a sua profissão sempre fora muito curiosa. Tinha o hábito de observar as pessoas. Notou que a Sra. Lori estava com o vestido azul, os calvos cabelos presos num coque bem feito. A mesa posta para duas pessoas, e a pressa com que Nhá Cleide lhe abriu a porta, lhe traduziu tudo o que se passava na noite de natal. Ninguém visitara seus amigos.
Ao aproximar-se da mesa Sr. Cisnério já avisou:
- Nem dê-se ao trabalho Nhá Cleide. Já fiz meu desjejum na casa dos De Carli.
Nhá Cleide abriu-se em um sorriso todo desdentado. Para ela ser tratada com algum respeito era uma alegria, embora, por seu Cisnério, ela tinha desejos secretos.
- Como foi o seu Natal? Perguntou a Sra. Lori.
- De sempre. Sou só. Hoje tirei o dia para visitar os velhos amigos.
- E como foi a noite para os De Carli? Disse o Sr. Marco.
- Ah...esses tiveram uma grande festa. Os oito filhos vieram. Dona Flaviana era a felicidade em pessoa. Fizeram até homenagens ao falecido senhor Gianpaulo.
- Sabe, eu sou muito amiga dela. Ou melhor, fomos. Hoje eu não tenho mais paciência para os modernismos dela. Falou com certa acidez a Sra. Lori.
- Não ligue Sr. Cisnério. Carmela dedica seu tempo ao croché. Faz isso na esperança de que os filhos voltem.
- E como vão eles? Diz-se por aí que a vida na América é muito boa.
- Os ingratos mandam raras notícias. E na verdade eu já arranquei-os de meu coração. E se os senhores não se importam, meus chochés estão esperando minhas felicitações de Natal. Com sua licensa.
Antes de retirar-se dona Carmela fulminou o Sr. Marco com um olhar de desprezo e raiva.
- Pobre senhora. Comentou o Sr. Cisnério.
- É verdade. Mas nossos filhos se afastaram por não terem mais apreço pelo humor da mãe. Sabe seu Cisnério, sempre me pergunto porque não escolhi deixá-la e partir com a mais bela mulher que conheci. Isso tem tempo, mas ainda me lembro da graça da Srta. Bruno Delibera. Era verdureira a pobre. Nunca mais ouvi notícias.
- Eu lhe compreendo Sr. Marco. Também tive um desses romances. Conheci Cecília numa viagem de trem para a Espanha. E lhe digo, foram as noites mais quentes de minha vida.
- Então meu amigo, lhe convido para irmos até o centro da cidade, e lá poderemos visitar a casa da senhora Filipa. O senhor sabe lá se encontra as melhores raparigas da Toscana.
- E sempre dispostas a dar alegria para corações ociosos como os nossos.
E assim partiram, cada um dando baforadas em seus charutos.


Quilômetros dali, em um bordel de Paris, uma jovem, linda, loira, da mais bela estirpe caucasiana, acordava. Do seu lado havia um jovem, estrangeiro, filho de barões do café, cujos pais enviam à Europa para estudar, mas eles se detém a gastar todos os vinténs com as putas, bebida e fumo.
- Bom dia, Sr. André. Seu tempo terminou.
- Oh formidável Emanuelle. A moça com as violetas no cabelo. Não me mandes embora agora. Posso lhe pagar o dia todo.
- Mounsier... o melhor presente que podes me dar agora, é deixar-me só. Há água na bacia. Lave-se e vá.
- Voltarei à noite. Deve haver outras putas mais simpáticas aqui.
- Que seja.
Emanuelle serviu um copo do resto de champanhe que havia, acendeu uma cigarrilha e saiu.
Foi no terraço que encontrou sua melhor amiga. Era uma jovem russa vinda de Moscou. Emilieva babia uísque direto no gargalo.
- Feliz Natal, mon cherry.
- Péssima. Cliente gorda é terrível. Não tem como imaginar algo melhor. E o desse noite...creio que uma boi pesava menos. Pagou bem e me deixou esse uísque.
- Eu passei com um desses brasileiros engomadinhos. Filho de barão. Tem posses. Mas fazer o que? Tudo vai para Robes Pierre.
- É verdade, canso-me disso. Penso em voltar pro Rússia.
- Como? Robes Pierre controla nossas vidas.
- Mas não controla o que bebe. Está vendo essa anel Emanuelle? Essa pedra tem uma fundo falsa. Nele tem um venena que mataria um elefante.
- Entendo. E poderíamos daí pegar o dinheiro, vender algumas jóias dele e partir.
- Quero voltar pro Rússia.
- Eu não sei para onde ir. Mas sou de acordo.
- Se fores esperta, fale com a mancebo do café.
- Tens razão. Tomarei um banho, eu sei onde encontrá-lo. Conseguirei um vinho especial com ele. Robes Pierre não recusará um presente desses.
- E se investigarem. Estaremos longe.
- Então vou lá, Emilieva. Sendo rápidas logo seremos livres. Arrevoi.
- Arrevoi.

7 comentários:

Bruno deus disse...

cleidoca, um whisky pro pessoal que está lendo!

Thiago disse...

seu whisky será servido depois de eu lavar meu sagrado falo em sua bebidinha.

Marcus disse...

Essa promete!

Felipe disse...

Quando começa a matança?

Fabrette disse...

"nem li"

déio disse...

Ausência de subjetividade e figuras de linguagem.

Bruno Lima disse...

Razoável, um pouco dispersa, Meio sem nexo, mas tem potêncial