Parte 4

Sobre Eliéser.
Após minha traumática primeira vez, enfim meu namoro com o Eliéser se tornou algo mais sério a cada dia. Ele era um cara legal, e sempre curtiu muita música. Eu já passara e me comportar mais como uma mocinha. Troquei os tênis regazone de zebra, por sapatos com algum salto, mas ainda tinha uma coleção de All Star, na época haviam ressurgido do inpicio dos anos 80 e virado o grande hit. Descobri como usar batom, gloss e rimel. Descobri as tintas de cabelo. Embora meus primeiros visuais e experiências de maquiagem, me deixassem mais parecida com a Wednesday Addams.
Eliéser conheceu uma galera, colegas dele do Maria Rocha. E eu a normalista, estava tornando-me cada vez mais uma acompanhante da madrinha velha. Os amigos dele formaram uma banda, que chamaram de Blue Butterfly. Queriam lançar-se como uma banda de garagem. Eu estava muito, finalmente havia decidido ser uma boa aluna, coisas que qualquer moça "bem-comida" decide fazer.
Mas todo sábado a tarde eu ia no ensaio da banda dos meninos. E lá se fumava, muito, demais. Um dia decidi dar uma tragadinha para ver qual era a parada. Achei horrível. Minha boca ficou com o gosto de cinzeiro. Então vi uma cerveja do meu lado e tomei tuda em um gole só, na tentativa de tirar o gosto ruim da boca. Eu não imaginava que aquilo fosse me dar uma sensação de prazer tão grande. Me apaixonei pela cerveja. Acho que até mais do que eu era apaixonada pelo Eliéser.
Naquela mesma noite, já achei que fumar nem era tão ruim assim, e como o ensaio virou festa e a festa virou punk-hard-gruma's band*, comecei "encher o cu de ceva" porque o eliéser estava dando mais bola para a guitarra dele, e para uma garota que dizia-se promoter e levaria eles tocar num festival na serra. O nome dela, Clodine.
Clodine era do tipo descolada, cabelo vermelho, make dark. Camiseta de Iron Maiden, sabia tudo sobre rock, tudo sobre instrumentos musicais, sabia um pouco de tudo. Odiei ela. Por ciúme besta meu. Eu mesma decidi conversar com ela, queria marcar serrado, mas era ela muito gente fina. Odiei ainda mais. Não encontrei nada insuportável nela, a não ser o fato de que ela era ótima, maravilhosa e muito divertida.
Então senti que minha redoma de vidro, que me protegia num mundinho violeta ao qual só eu mesma pertencia havido desmoronado. Era a hora de parar de brincar de ser bruxa, de ser boa para minha madrinha, aluna exemplar. Eu era vazia, sem graça, nao acrescentava em nada e era a chata que tossia quando uma baforada de cigarro vinha no meu nariz. E Eliéser, bom ele apenas me dava alguns beijos, porque lá de vez enquando percebia que eu estava ali.
E eu passei a repudiá-lo. Fumava mais maconha do que ele. E comecei a ficar uma Clodine. Foi com ela que aprendi várias coisas. E com ela que saí em vários programas undergrounds, lado B, lado Z e lado Ó, e cansei de ir nos ensaios da Blue Butterfly.
E notei que haviam garotos mais bonitos. Com cabelos desgrenhados, vestidos de preto que fumavama um e conversavam sobre Marx, Fidel e Raul. Eram vampiros, só saiam a noite. E isso combinava mais com uma bruxa. Me tornava mais interessante, porque eu era a aluna. que precisava ser iniciada. Todos tinham algo para me ensinar, e eu desejo em aprender.
Do primeiro dia que coloquei cigarro na boca, até o fim do meu namoro com o Eliéser, se passarm pouco mais de 50 dias. Eu me cansei, ele já havia me ensinado o que podia. Roberta e seus amigos eram mais interessantes.
Sobre Clodine
Muitos dizem que Clodine me levou pro mal caminho. Eu acho que ela foi a minha fada madrinha. A grande transformadora de parte do meu caráter. Não é atoa que hoje ela é minha comadre, minha sócia. Minha melhor amiga.
Clodine é uma guria tão espontânea e que sempre se adapatou as mais diversas situações que meu ódio a primeira vista, foi aos poucos se tornando uma idolatria. Acho que ela foi a primeira pessoa que eu conheci que visualizou a fera que eu escondia nos meus trajeitos desenconçados. Ela sabia que eu nunca seria uma punk, ou hiponga. Ela sabia que eu queria ser patricinha. Sabia que eu queria gostar dos meninos esculachados, mas estar sempre cheirosa ao lado deles. ela aprendeu a usar scarpin, para poder me ensinar depois, por perceber a necessiade que eu tinha de usar aqueles sapatos que as gurias que davam gritinhos histéricos nos shows dos meus amigos usavam.
Ela era aquela que acompanhava as bandas, ia nos seus shows para ouvir o som. Curtir a arte. Ser amiga deles, e agendar seus shows. Eu tinha que ser uma das histéricas que não mediria esforços para entrar no camarim, e me fotografar com qualquer cantor de fama bairrista.
Mas não sou uma fantoche que foi formado por ela. Ela me ensinou a ser eu mesma. Me ensinou a não esconder meu jeito bizarro de ser. E eu a ensinei que muito, e isso foi-se percebendo conforme o tempo passou. Clodine libertou o furacão adolescente que havia em mim. Eu libertei a mulher forte que há dentro dela.
Sobre os cogumelos
Um dia, fomos num tchu-tchu-churrasqueira* na casa de um cara chamado Miguel, que era melhor amigo do guri que dividia apartamento com o Jumuju o namorado da Clodine. Esse churasco foi num sítio. Saí do estágio na escola do longínquo e suburbaníssimo bairro Tancredo Neves, sim porque eu fui uma normalista exemplar, juntei uns brinquedos numa mochila e me joguei pro sítio lá em São Martinho da Serra.
Cheguei lá e fui recebida com duas marcas de patas de um cachorro imundicia chamado Tigor. Ele me sujou aquela bola de pêlos infarosa, e despertou os risos do Mário! Ai Mário! Dio Madonna. Se um dia deuses olímpicos existiram, deixaram um pedaço de si ali, naquele sítio. com uma bombacha que deixava sua bunda ma-ra-vi-lho-sa, sentado tomando um chimarrão, com um cigarro de palheiro na boca, e tocando "oba viva veio a enchente, o Uruguai transbordou, vai dar serviço para gente". E eu lá, embasbacada, tendo frenesis pelos nervos, e suja graças a um cachorro sem serventia.
Sentei-me de frente pro Mário do outro lado da roda, e comi, e cantei e bem alto, e ria, e fiz piadas, toda me ensinuando. Bem coisa de loser encalhada. E ria alto. Qualquer curicaca passava vergonha. Mas eu sentia lá no fundo do meu átrio esquerdo em conjunção com meu útero e ascendente no rim, que eu teria sorte naquela noite. Minha cabeça nem se preocupava mais com o fim das Spice Girls. Eu queria me vestir de prenda, e sair dançando chula. Ai coisa linda quera aquele guri de braços fortes, pegando aqueles espetos de costela corda, e cortando, e servidno e rindo. E eu querendo gritar: me come, me faz mulher, quero voar!
Ainda bem Jumuju tinha umas idéias boas, e decidiu que a noite era bom para ir juntar cogumelos, para fazer chá, pois os encontraríamos orvalhados. Coisas que só quem é Gargamel entende. Mário não deu sinais de ir junto, nem em eu, óbvio. Foi então que ele chegou perto de mim. Naquele dia eu descobri que nunca morrerei de infarto. Ele disse com aquela voz maravilhosa:
- Vamos junto? Se não ficaremos só nós aqui.
Aquela frase me faz compreender os broxas até hoje. Mas fiquei sem opção, ou eu ia junto, ou eu ficava sozinha, com o insuportável do Tigor.
Bom, sei que sumibos morros e mais morros e juntamos cogumelos. Sei lá porque hora da madrugada chegamos de volta na casa. Jumunju se encarregou de fazer um chazinho, e Mário que fora todo o caminho conversando comigo sobre nossas infâncias, e rindo de mim claro, perguntou se eu tumova chá. Eu disse que nunca havia experimentado, e que tinha medo. Ele falou que passava pela mesma curiosidade. Então propôs que experimentássemos juntos. E foi o que fizemos.
E ao terminar o primeiro gole, eu descobri a boa sedutora que sou. Terminei, olhei os olhos dele e disse:
- Segura minha mão, que se eu tiver um treco, saberei que estou protegida.
- Te pego no colo se preferir, respondeu ele.
- Ok, mas eu vou pegar um casaquinho, está me dando frio.
- Eu te dou minha camiseta.
- Nossa, tem um vaquinha andando no sei peito Mario, hahahahahahahahah
- Tá fazendo cócegas ahaahahahahahahah
- Olha ali ela tá indo pro seu ombro hahahahahahahahaha
- Vi, sua voz está parecendo do monstro.
E essa produtivíssima conversa me rendeu uma noite ao relento, miquins, que peguei por dormir na grama. E um namorado novo.
*Tchu tchu Gruma's Band era a banda do Jumuju. Usávamos essas palavras em diversas ocasiões.

2 comentários:

Caroline disse...

Agorinha você revela seu lado perua.

Marco Parsons disse...

Clodines são um perigo...